quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A Igreja e sua Missão no Plantio de Igrejas


O assunto plantio de igrejas deve ser observado sob a perspectiva da missão, ou seja, o resultado do desejo de Deus que envolve a ação da Igreja.
Um dos maiores perigos existentes no processo de plantar igrejas é defrontar-se com um cenário onde a missão da Igreja está desassociada da missão de Deus, a Missio Dei. E isso ocorre quando a Igreja segue sua própria agenda, de plantio ou crescimento, por motivações próprias e antibíblicas. Não para a glória de Deus, mas para a glória da igreja. Não para alcançar os perdidos, mas para fortalecer a denominação. Não para exaltar Jesus, mas para exaltar os seus líderes.
Michael Green, em seu comentário do evangelho segundo Mateus, 27 expõe que, na Igreja primitiva, a missão era um conceito fácil de ser compreendido. O desejo de Cristo - de ser anunciado a todos - era claro para cada crente. Essa missão, porém, apesar de clara e facilmente compreendida, era complexa em sua execução, pois demandava sair de Jerusalém, abrir mão de uma estrutura eclesiástica local já em formação que providenciava um senso de conforto para os cristãos.
Muitos missiólogos compreendem que o plantio de igrejas, e não apenas o evangelismo individual, é um ensino contido na grande comissão, o que creio ser evidente. Hesselgrave, Johnstone e Bosch manifestam-se de forma marcante nessa compreensão expondo que o fazer discípulos da grande comissão é uma ordem que desembocaria no agrupamento dos crentes, formação de igrejas locais, expansão do Reino de Deus. Johnstone entende que fazer discípulos, batizando-os e ensinando-os a Palavra de Deus, implica em “uma vasta diversidade de atividades envolvendo os crentes em uma comunidade com a qual se relacionarão e prestarão contas”.
Richard Hibbert expõe o pensamento de Love quando esse defende a ligação entre a grande comissão e o plantio de igrejas com base em Atos 14.21-23, que contém o mais conciso relato sobre plantio de igrejas no Novo Testamento. O termo usado no verso 21 (fizeram muitos “discípulos”) vem do verbo matheteo usado em Mateus 28.19, na grande comissão. Esses são os únicos dois lugares em que o verbo é usado no Novo Testamento. Expressa o desejo de Cristo para seus discípulos na grande comissão e, a partir dela, Seu desejo de ver esse grupo de discípulos gerando novos grupos que amam e seguem e Jesus, ou seja, plantando igrejas.
Em razão desse pensamento, Hibbert menciona que: “Tenho argumentado que o plantio de igrejas é peça fundamental na Missio Dei. Sem o plantio de novas igrejas o propósito de Deus não é realizado na terra. A transformação da sociedade na direção de Deus ocorre através da sua agência, a Igreja, e assim comunidades locais de convertidos são a maior expressão de sua presença e seu desejo transformador”.  Assim, perdendo a Igreja a prioridade da grande comissão, perderá também o caminho para o cumprimento do desejo de Cristo: uma comunidade de santos pregando um evangelho transformador e gerando, no poder de Deus, outras comunidades que seguem e amam o Senhor. Inquieto-me ao ver uma atual verdade nas antigas palavras de Cirenius, teólogo bizantino, ao afirmar que a Igreja “sofrera a tentação de desenvolver a sua personalidade e perder a sua finalidade”. À imagem do primeiro homem, a Igreja também peca quando esquece o porquê está aqui e imagina ser suficiente apenas o existir. Torna-se assim tal qual uma linda rosa vermelha... a qual nasce, cresce, murcha e morre em um campo distante sem ser vista por ninguém, sem dar prazer a nenhum olhar.
Vivenciamos a tendência da errática cristã, a qual tenta incluir-se nas bênçãos do evangelho e se autoexcluir de sua prática: a antibíblica vontade de ver a terra arada sem por as mãos no arado.

Igreja – O Conceito Neotestamentário
A Igreja no Novo Testamento é o resultado de uma construção de valores e fatos. A compreensão de Igreja que os discípulos possuíam crescia em estágios bem demarcados. Em um primeiro momento, havia a compreensão da Igreja a partir e ao redor dos apóstolos. Jerusalém tornou-se não apenas o palco para a permanência dessa igreja como também um símbolo de centralização. Em outro estágio encontramos o conceito dos gentios que não apenas passaram a ser evangelizados a partir de Antioquia, mas passaram, eles mesmos, a definir o conceito crescente de Igreja nas mentes e corações dos convertidos. Outro estágio ainda, após o enraizamento de igrejas locais espalhadas por todo o mundo gentílico através da dispersão dos crentes em Atos 8 e do envio de Paulo e Barnabé em Atos 13, as próprias igrejas locais passaram a plantar igrejas locais. Michael Green chama nossa atenção para esse momento em que não apenas Jerusalém, mas os discípulos pioneiros, deixaram de ser o centro motivador do evangelismo. Agora, as igrejas locais passam a olhar ao redor e começam a plantar novas igrejas.
O Espírito Santo, no Pentecostes, conferiu autoridade à Igreja para a sua missão. Assim, milhares de homens e mulheres, cheios do Espírito Santo, passavam a apresentar as Boas Novas por onde quer que chegassem. Esses - do caminho - não possuíam ainda uma eclesiologia definida, porém eram alimentados pela Palavra, a partir do ensino dos apóstolos, havendo entre eles um ambiente de comunhão, dedicação à oração e proclamação de Jesus.
Creio ser relevante, para nosso estudo sobre plantio de igrejas, entendermos um pouco do perfil desta Igreja no Novo Testamento, pois boa parte da problemática no processo de plantar igrejas advém da má compreensão da natureza da própria igreja pelo que a planta.

Igreja de Deus
Devemos, inicialmente, identificar alguns conceitos bíblicos que nos ajudarão a compreender o significado neotestamentário de “Igreja”.
Comumente encontramos no Novo Testamento a expressão “Igreja de Deus” (“Ekklesia tou Theou”), o que evidencia que essa Igreja veio de Deus e pertence a Ele. É uma comunidade que possui Deus como fonte; é eterna, espiritual e universal. Não provém de elucidação humana ou de uma obsessão. Permanecia em Jerusalém, mesmo depois de ter sido revestida de poder no Pentecostes. Após Atos 8, com a forte perseguição da Igreja, os crentes foram dispersos e iam por toda parte pregando a Palavra. Em meio à crise, a Igreja foi gradualmente perdendo seu apego territorial a Jerusalém e envolvendo-se com as comunidades cristãs que nasciam em território gentílico. A própria Igreja em Antioquia, enviadora de Paulo e Barnabé em Atos 13, eram formados, primariamente, por judeus convertidos. É notório, portanto, que a visão da Igreja se expande se aproximando mais da visão do seu Senhor. Compreendeu-se que a igreja local não pertence ao local, pertence ao Corpo que é dinâmico e se expande segundo a Cabeça, que é Cristo.
Plantadores de igrejas não devem ser limitados pela geografia ou territorialidade. Sua missão é focada em pessoas, sejam do grupo alvo ou outros que estão ao seu redor; da etnia que estuda ou outra que se aproxima. Onde houver uma porta aberta e um coração sem Deus, ali devemos apresentar o evangelho, pois na cosmovisão do Senhor a igreja é formada por pessoas. Onde há pessoas há possibilidade de vermos nascer a igreja de Cristo.

Igreja Humana
Também dentro do conceito de “Igreja” nos deparamos no Novo Testamento com um perfil bastante humano. Em 1 Tessalonisenses 1.1, por exemplo, vemos “igreja de Tessalônica” (“ekklesia Thesalonikeon”) dando-nos a ideia daqueles que são Igreja também sendo tessalônicos, cidadãos de Tessalônica.
Mostra-nos o fato de que por serem “Igreja” não significa que deixam de ser cidadãos, patriotas, carpinteiros, lavradores, comerciantes, desportistas, pais, mães ou filhos. “Igreja” no Novo Testamento não é apresentada como uma comunidade alienante, mas como uma comunidade que abrange o homem em seu contexto humano, fazendo-nos entender que essa Igreja não foi separada do mundo, mas purificada dentro dele.
No livro de Atos, a humanidade, passo a passo, era chocada com a fé daqueles que transtornavam o mundo, segundo a qual o viver é Cristo, o objetivo era ganhar almas, a alegria era a adoração, o que os unia era a verdadeira comunhão, o amor era traduzido em ações, os fortes guiavam os fracos, as dificuldades eram enfrentadas com oração, a paz enchia os corações. O Mestre enfatiza que não vos compete conhecer tempos ou épocas. Para a expressão “tempos ou épocas” o texto poderia utilizar o mesmo termo encontrado no versículo 6: “chronos”. Dessa forma, Jesus estaria dizendo que não era da competência dos discípulos conhecerem o “tempo humano” (dia, mês e ano) em que o Reino seria restaurado. Assim, Jesus condicionaria o assunto escatológico a um plano humanamente inteligível. Outra opção textual seria a utilização do termo “kairos” para “tempos ou épocas” na resposta de Cristo e, assim, enfatizaria que “não vos compete conhecer o tempo de Deus”, ou seja, “os fatos e acontecimentos que assinalavam um momento certo ou errado de algo acontecer”, nas palavras de Tertúlio Cônico. Dessa forma, Jesus afirmaria que não era da competência dos discípulos conhecerem o “tempo de Deus”, o momento apropriado na economia do Pai para que o Reino chegasse. Para nossa surpresa textual, a expressão “tempos ou épocas” no versículo 7 utiliza ambos os termos e conceitos: “chronous kai kairous” (o tempo humano e o tempo divino) e, com isso, o texto afirmava que a prioridade de Jesus não era escatológica (os últimos dias, os eventos finais, a consumação dos séculos), mas missiológica. O versículo 8 intervém com a expressão mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo e sereis minhas testemunhas.... Com essas palavras Jesus explicava o Reino: Ele criara uma Igreja funcional e não apenas contemplativa, nascida para espalhar a Sua Palavra a todos os povos, em todas as gerações, até a Sua volta. Paulo entende esse princípio e, em Romanos 15.20, explica que aqueles que nada ouviram são a prioridade de Deus em relação à evangelização mundial. Isso pode ser perto ou pode ser longe, tanto em uma tribo isolada quanto do outro lado da rua. O valor de uma alma, para Deus, é o mesmo: mais que o mundo inteiro.

Igreja – O Processo Do Envio
Olharemos para a igreja em Antioquia como paradigma de envio, compromisso evangelístico e força plantadora de igrejas. A proposta é fazê-lo sonhar com esse modelo bíblico. Não foram Paulo e Barnabé que iniciaram esse grande movimento de plantio de igrejas entre os gentios, mas uma igreja, sensível ao Espírito, com a visão do Reino, temor à Palavra e pronta para servir. Igrejas plantam igrejas.
“Ora, na igreja em Antioquia havia profetas e mestres, a saber: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes o tetrarca, e Saulo. E servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, depois que jejuaram, oraram e lhes impuseram as mãos, os despediram”. (At 13.1-3)
O versículo 1 enumera cinco líderes da igreja em Antioquia descritos sob a categoria de “profetai kai didaskaloi” (profetas e mestres). “Profetes” era aquele que “falava em nome de Deus” e, também, utilizado no grego ático tanto para “pregador” quanto para “expositor das leis”. O “Didaskalos” é o mestre (de “didasko”: ensino) aplicado para aquele que possui discípulos. Parece-me que, nesse caso, esses “didaskaloi” estavam mais ligados à instrução dos novos convertidos em Antioquia. Nessa lista, primeiramente, é mencionado Barnabé, o qual era “natural de Chipre”. Em seguida, Lucas cita Simeão referindo-se, provavelmente, a um africano “Níger” (negro) e menciona Lúcio “de Cirene” provindo do norte da África. Também lista Manaém, colaço (“syntrophos”: irmão de leite) de Herodes e, finalmente, Saulo.
O versículo 2 começa com uma ação coletiva: e servindo eles ao Senhor...”. E as duas perguntas que devem ser aqui levantadas são: quem são “eles” e como serviam ao Senhor? Há três possibilidades para entendermos “eles”, já que o texto não o define: refere-se a toda a igreja em Antioquia; ou apenas aos cinco líderes do verso anterior; ou ainda, especificamente, a Paulo e Barnabé, mencionados separadamente logo após.
Por ausência de ligação textual, creio que podemos excluir a “igreja em Antioquia” restando-nos os cinco líderes do versículo 1 e Paulo e Barnabé do versículo 2. De qualquer forma, esses últimos são também mencionados na lista de líderes; portanto, os utilizaremos como pressuposto para “eles”. Sigamos para a pergunta principal: como serviam ao Senhor?

Leitourgoi – Edificadores do Corpo de Cristo
O verbo “servindo” (leitourgounton), utilizado aqui, aponta para aqueles que serviam ao Senhor como “leitourgoi” - servos. Lembremo-nos de que havia três formas de alguém se apresentar como “servo” no contexto neotestamentário:
1.      Como “doulos” - o escravo. Nas palavras de Candus: “Aquele que pessoalmente acompanha o seu Senhor para realizar os desejos do seu coração”. Portanto “doulos”, no contexto do Novo Testamento, é aquele que tem um compromisso direto com Deus; que serve pessoalmente ao seu Senhor.
2.      Como “diakonos” - o mordomo. Aquele que serve ao seu Senhor através do serviço à comunidade. Na Bíblia, o termo é usado para aqueles que, sensíveis à necessidade do Corpo de Cristo - física e espiritual - servem a Deus.
3.      Como “leitourgos” - o edificador. O termo, ligado à “leitourgia” (liturgia), não é restrito como o usamos hoje. Refere-se àquele que serve ao Senhor sendo usado por Ele para abençoar e edificar o seu irmão. E esta é justamente a raiz do verbo que expressa que Paulo e Barnabé “serviam” ao Senhor afirmando, portanto, que eles eram, antes de tudo, “abençoadores” ou “edificadores” do Corpo de Cristo em Antioquia. Eram uma bênção, como se pode falar hoje.
Portanto, a primeira característica apontada pelo texto a respeito desses dois homens, que iniciaram a obra missionária como a conhecemos hoje, não foi à competência intelectual, o título ministerial ou a profundidade teológica, mas a fidelidade de vida em relação aos de perto, aqueles que os rodeavam em Antioquia.
Uma aplicação objetiva do texto seria esta: não envie para longe aqueles que não são uma bênção perto. Aquele rapaz que diz possuir um claro chamado ministerial, se não tiver, primeiramente, um desejo ardente pelo ministério comprovado pelo serviço em sua igreja local, certamente, não o terá em lugares distantes. Ele não está pronto para ser enviado ao seminário. Aquela jovem que, insistentemente, afirma ter um claro chamado ministerial para a obra missionária em algum lugar distante, se não o demonstrar, onde está, com os ministérios e oportunidades locais, não o fará também do outro lado do mundo. Ela não está pronta para ser enviada ao preparo ou ao campo.
Um plantador de igrejas que, localmente, não evangeliza e não apresenta disposição para cooperar com as excursões evangelizadoras da igreja, certamente não demonstrará nada diferente em outras paragens.
Spurgeon já falava em 1885 que nada é mais difícil do que se mostrar fiel aos de perto que bem lhe conhecem” e, aqui, três rápidas aplicações poderiam ser feitas.
§  Pessoal. Não há nada mais perto de nós do que a nossa família. Aquele que não pode ser apontado pela esposa, esposo ou filhos como leitourgos no dia-a-dia de sua casa, dificilmente será uma bênção fora dela, seja ele um professor, pastor, missionário ou crente.

§  Ministerial. Líderes e pregadores que se destacam nos púlpitos e salas de aula de igrejas e seminários, mas fracassam com a família, amigos e pessoas chegadas, não estão prontos para o ministério. Plantadores de igrejas que são exímios no que fazem, nas ruas, praças e templos, porém não têm testemunho de Cristo entre os seus, não estão qualificados ao envio. O ministério não define o próprio ministério. O caráter de Cristo em nós é que o faz.

§  Eclesiástico. Não há nada mais perto da igreja do que a própria igreja, os irmãos com os quais nos encontramos a cada semana. Se uma comunidade cristã não demonstra ser leitourgos, abençoadora, para aqueles com a qual convive dia a dia, culto a culto, dificilmente conseguirá fazer diferença em outros lugares, seja perto, seja longe.

Aphorizo – Separando para o envio
O texto diz que servindo eles ao Senhor, disse o Espírito Santo: separai-me...”. O texto não esclarece como o Espírito se manifestou e falou à igreja, mas toda a ação deixa bem claro que a igreja, prontamente, ouviu.
O conteúdo do que Ele falara foi “separai-me” (aphorisate), do verbo “aphorizo”, o qual é um verbo exclusivista também usado em Mateus 25.32, quando o pastor “separa” as ovelhas dos carneiros. “Aphorizo” se diferencia de “ekklio”, pois não se trata de uma separação de relacionamento (foram excluídos da igreja de Antioquia), mas de uma separação para uma função (permanecendo ligados à igreja, são agora designados para uma função além da igreja local). É o mesmo termo usado nos Documentos de Cartago quando cidadãos comuns eram chamados para engrossar as fileiras do exército romano. Portanto, Paulo e Barnabé seriam separados porque, primeiramente, haviam sido chamados e não o contrário.
É bom também entendermos que “ergon” (a obra) para a qual foram chamados é um termo genérico que tanto pode significar um ato quanto uma função e poderia ser usado por ser essa obra já bem conhecida por todos na Igreja – a evangelização dos gentios – ou também para chamar a atenção para o ponto principal deste comando: não a obra, mas quem os chamou para essa obra. Demonstra também flexibilidade ministerial indicando que a obra pode mudar, mas o chamado permanece, pois se baseia naquele que nos chamou.
A expressão jejuando e orando vem como um conjunto que se completa já que, segundo Stott, “o jejum é uma ação negativa (abstenção de comida e outras distrações) em função de uma ação positiva (culto e oração)”, e, em subseqüência, impondo sobre eles as mãos...” trás a expressão “epithentes tas cheiras”, que possui vasto significado para o conceito de envio missionário. Vejamos os principais:
*      Sinal de Autoridade. Este “impor de mãos” remonta ao grego clássico, quando um pai impunha suas mãos sobre o filho que lhe sucederia na chefia da família, ou seja, uma transferência de autoridade. Para Paulo e Barnabé, isso significaria que eles possuíam a autoridade eclesiástica para fazer tudo o que a Igreja faria mesmo onde ela não estivesse presente, como comunidade. É, portanto, ao mesmo tempo, uma carga de autoridade e responsabilidade. Como igreja em Antioquia, eles poderiam pregar a Palavra, orar pelos enfermos e desafiar os incrédulos, mas precisariam também compartilhar da mesma fidelidade e dedicação que existia naquela comunidade dos santos.

*      Sinal de Reconhecimento. Também era usado em momentos oficiais como na cidade de Alexandria, quando 20 oficiais foram escolhidos especialmente para guardar a entrada da cidade que sofria com frequentes ataques de nômades, e sobre eles “foram impostas as mãos” em sinal de reconhecimento de que eram dotados das qualidades para aquela função. Para Paulo e Barnabé, isso consistia no fato de que a liderança da igreja reconhecia não apenas o chamado (que era claro), mas a capacidade e dons para cumprirem a missão.

*      Sinal de Cumplicidade. Encontramos também no grego clássico o “impor de mãos” no sentido de cumplicidade quando generais eram enviados a terras distantes para coordenar uma província e as autoridades enviadoras impunham as mãos demonstrando ao povo que eles não seriam esquecidos, ou seja: permaneciam como parte do corpo. Para Paulo e Barnabé, significaria dizer que, por mais distantes que fossem, permaneceriam ligados à igreja de Antioquia. Que essa igreja continuaria responsável por eles, amando-os, desejando o melhor e, com certeza, sustentando-os. Ao meu ver, impor as mãos como sinal de autoridade e reconhecimento não é tão difícil como impô-las como sinal de cumplicidade, pois esse último é um ato contínuo que demanda dedicação e profundo amor. Kent Norgan afirmou que “é mais fácil amar aquele que se vê e ter compaixão ao que está sempre ao seu lado”.
Por fim, a igreja “... os despediu (apelusan), do grego “apoluo”, que significa “fazer as honras do envio”. Creio que havia aqui um aspecto prático, pelo qual líderes e irmãos pensaram também nas necessidades imediatas de Paulo e Barnabé, para a viagem e ministério. “Apoluo” é uma expressão formal, portanto leva-nos a crer que não foram despedidos de forma simples, mas antes houve um culto no qual a igreja oficialmente se reunira para enviá-los: um abençoado culto de envio.


Em Cristo
Pr. Capelão Miss. Edmundo Mendes Silva

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

EVANGELIZAÇÃO DE GRUPOS SINCRETISTAS


Compreendendo as diferentes fontes religiosas para uma comunicação eficaz

É comum a classificação dos povos e países do mundo em blocos religiosos bem específicos em termos de mega-religiões. Assim, classifica-se os povos em cristãos, islâmicos, budistas, hinduístas, animistas e o restante como pertencentes a outras religiões ou religiões minoritárias. Entretanto, muitos ainda não se deram conta de que, possivelmente a maioria dos povos ainda carentes de ação missionária, apesar de professarem uma destas mega-religiões, possuem uma religiosidade sincretista. Especialmente em povos de cultura menos tradicional, mais aberta a novas formas de resolver problemas e ao intercâmbio lingüístico, aberta a novas expectativas e meios de subsistência, há uma maior abertura também na religiosidade, facilitando assim a mistura religiosa.
O catolicismo popular brasileiro é fortemente influenciado pelo espiritismo, enquanto o animismo de muitos grupos indígenas é influenciado pelo catolicismo e em alguns casos também pelo candomblé. Isto não acontece apenas no Brasil e por isto um missionário que vai trabalhar com muçulmanos precisa estar ciente de que, em algumas regiões a religiosidade islâmica é mesclada com xamanismo, enquanto em outras regiões recebe influência animista. Da mesma forma, quem vai trabalhar com budistas deve estar ciente que em algumas regiões encontrará um sincretismo budista-xintoísta, enquanto em outras a realidade poderá ser um sincretismo budista-confucionista e assim por diante. 
Em contextos assim, não basta ter um bom conhecimento da religião dominante. É preciso fazer uma leitura acurada das diferentes camadas religiosas, detectando os princípios religiosos ativos que influenciam o dia-a-dia do povo. Entre o dogma e a praxe, muitas vezes há uma grande separação. O dogma parte de uma elite pensante, que via de regra pertence à religião oficial ou predominante. Mas a praxe é o que o povo vive, a religiosidade viva, ativa, e que geralmente flui da religião popular. O dogma dá respostas a perguntas, mas a praxe dá soluções aos problemas. No catolicismo popular brasileiro, o dogma diz que Deus é bom e protege aqueles que o buscam, mas a praxe diz que uma ferradura de sete furos protege a casa do mal. No nível do dogma, fazer um sinal-da-cruz em frente ao cemitério é interceder pelas almas dos mortos, mas na praxe é proteger-se contra “assombrações”!
Não basta ter conhecimento dos dogmas, é preciso compreender a praxe também. A falta desta compreensão favorecerá o surgimento de igrejas sincretistas, pois o evangelho pode entrar apenas como mais um princípio religioso.

O QUE É SINCRETISMO?
O termo sincretismo foi usado inicialmente por Plutarco, no século 1, para designar a união das cidades cretenses contra inimigos comuns (no grego syn, “união” + cretismo, “cretenses”). Somente no século 16 a expressão passou a ser relacionada à mistura religiosa. 
Scott Moreau, professor de religiões populares no Wheaton College, define sincretismo como uma substituição ou diluição de elementos essenciais do evangelho. Seguindo o seu raciocínio, o conceito pode ser ampliado para substituição ou diluição de elementos essenciais de uma certa religião. Já David Hesselgrave entende sincretismo como uma modificação e adaptação de crenças e práticas de sistemas opostos (ou diferentes) resultando em um novo sistema. Neste caso o termo fica bem restrito, pois nem sempre surge um novo sistema. 
Para fins de convenção, o termo sincretismo será empregado neste texto de forma mais genérica, sendo conceituado como a mistura de princípios religiosos diferentes ou opostos, com a aceitação de todos como verdadeiros, em maior ou menor escala, independente desta mistura se dar em nível de influência apenas ou de uma fusão. Desta perspectiva, é possível perceber sincretismo desde o macro das mega-religiões até as suas microdivisões, como no contexto cristão evangélico. Fica claro também que sincretismo não é uma religião, mas sim uma mistura religiosa, da mesma forma que miscigenação é uma mistura racial.
Apesar do uso do termo neste sentido ser relativamente recente, a prática em si é muito antiga. Já no Antigo Testamento encontramos vários exemplos, como o caso dos povos que ocuparam Samaria, em 2 Reis 17.27-33. Cada povo levou para lá seu respectivo deus. Um sacerdote israelita foi enviado para ensiná-los a “servir o deus da terra” e o resultado foi uma religiosidade altamente sincrética. “Adoravam ao Senhor, mas também prestavam culto aos seus próprios deuses, conforme os costumes das nações de onde haviam sido trazidos” (v.33).
No Novo Testamento temos o exemplo clássico do gnosticismo, combatido por vários autores bíblicos, que era um sistema religioso dualista, incorporando elementos dos mistérios orientais, do judaísmo, do cristianismo e dos conceitos filosófico-religiosos dos gregos.

NÍVEIS DE SINCRETISMO
O sincretismo se dá com o contato de dois ou mais sistemas religiosos, podendo acontecer em vários níveis ou graus. Os quatro níveis a seguir destacados, são apenas os principais.

1.      Em um primeiro nível, a antiga religião é preservada, mas absorve influências de uma nova religiosidade. Este é o caso, por exemplo, dos Krenak do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Avessos a tudo que vem da sociedade externa, resistiram ferrenhamente ao processo de catequese desenvolvido pelos capuchinhos desde o século 17, bem como, à influência católica da sociedade envolvente ao longo dos anos. 
Em conversas sobre a sua religiosidade, eles são enfáticos em afirmar: “não somos católicos nem protestantes”. Entretanto, é fácil perceber alguns traços do catolicismo na religiosidade Krenak. 
Na dimensão do divino, os Krenak possuem três categorias principais de poderes espirituais: Maréts – significa literalmente “velhos” e trata-se de seres espirituais que habitavam o céu (taru), os grandes ordenadores dos fenômenos da natureza e protetores os índios (burúm); Nanitiongs (ou Nandyóns) – espíritos encantados dos mortos, dignos de veneração; e os Tokóns – espíritos da natureza, mas que também podem manter contato com os xamãs.
Logo, a despeito da influência católica durante séculos, os Krenak mantiveram suas categorias de poderes espirituais, além de lugares sagrados e rituais. Porém, incorporaram categorias católicas ao seu universo espiritual, como santos, a Virgem Maria e a própria pessoa de Cristo. O Ser Supremo dos Krenak é o mesmo Deus dos cristãos que, apesar de ausente no dia-a-dia, foi incorporado no universo religioso indígena. 

2.      Em um segundo nível, e possivelmente o mais comum, a nova religião é aceita, mas interpretada pela ótica da antiga religiosidade. Este é o caso dos Caxixó do centro-oeste mineiro. Subjugados pelos colonizadores no século 18, tornaram-se jagunços e posteriormente agregados de fazendas. Proibidos de falar a língua e praticar seus rituais, aos poucos se tornaram católicos, mas interpretam o catolicismo de forma bem peculiar.
Eles usam a Bíblia, celebram missas no vilarejo e participam das programações católicas no povoado mais próximo. Entretanto, preservaram em grande parte a sua cosmovisão animista, praticando ainda antigos rituais de cura e invocação de espíritos. Na dimensão do divino, buscam proteção em Jacy, entidade herdada dos “Carijó”, que a identificava com a lua. Temem a Angüera, também herdada dos Carijó, descrita como um ser medonho, de rabo e língua branca. Crêem ainda nos Caboclos D’Água, seres que vivem nas águas do Rio Pará. 
Assim, ao contrário dos Krenak que incorporaram categorias católicas ao seu universo religioso, os Caxixó se tornaram católicos, mas incorporaram no catolicismo categorias da sua antiga religiosidade. 

3.      Em um terceiro nível, a nova religião é aceita, porém a antiga é preservada sem que haja uma fusão. Hesselgrave prefere classificar este caso como “multi-religião”, citando como exemplo os casos do Japão e da China. Para ele, no Japão são praticados o xintoísmo e budismo, com influências do confucionismo e taoísmo. Já na China, essas mesmas religiões se manifestam em áreas específicas da vida. O confucionismo em aspectos intelectuais e éticos; o budismo na filosofia e arte; o taoísmo em aspectos místicos e idealistas.
Apesar de não se fundirem, é inevitável a influência recíproca dessas religiões, portanto, pode-se considerar este fenômeno como sincretismo.

4.      Em um quarto nível, a antiga religião se funde com a(s) nova(s) religiosidade(s), formando um novo sistema religioso. Um caso típico seria os Xacriabá do norte de Minas. Contatados pelos colonizadores ainda no século 17, passaram por um intenso processo de miscigenação com negros, escravos e retirantes baianos. Foram também catequizados pelos capuchinhos e o resultado foi à fusão da sua antiga religiosidade com o candomblé afro-brasileiro e com o catolicismo de tal forma que surgiu um novo sistema religioso. 
A principal entidade Xacriabá é a onça-cabocla Yayá, protetora e orientadora do povo. A segunda é São João dos Índios, que se trata de uma imagem católica esculpida por um indígena e atribuída a São João. Entretanto, o conceito Xacriabá daquela imagem tem pouco a ver com o São João católico, e sim com uma entidade espiritual que protege o povo. O lugar mais sagrado é o terreiro, onde praticam seus rituais. Para entrar ali, os participantes devem estar vestidos de branco e descalços, aos moldes de muitos rituais afro-brasileiros. 
Este caso revela não apenas a influência de uma religião sobre outra, mas a fusão de princípios religiosos ativos diferentes, resultando num terceiro ou quarto elemento. 

CAUSAS DO SINCRETISMO
Em última análise, o sincretismo é fruto do vazio espiritual, do sentimento de que algo está incompleto, ainda por vir. Mas em termos histórico-culturais, pode surgir por várias causas, das quais serão apontadas aqui apenas as principais.

1.      Imposição – Em processos de conquista e dominação política, é historicamente comum a imposição da religião dos dominadores como parte do processo de subjugação. Assim aconteceu na época das conquista de Alexandre, o Grande, quando a religiosidade e mitologia grega foram amplamente difundidas. E o mesmo aconteceu no período das grandes expansões européias, quando a religião dos Estados andava de mãos dadas com os colonizadores. 
Sempre que uma religião é imposta, o povo a assimila superficialmente, no nível das formas, mas no nível dos significados a sua antiga religiosidade permanece viva. A maioria dos indígenas brasileiros passou por este processo de cristianização através da ação dos capuchinhos, jesuítas e salesianos. Tentando livrar os indígenas do genocídio promovido pelo governo e militares, esses religiosos faziam aldeamentos, onde reuniam várias tribos num processo unificado de catequese. Proibiam a prática da religião tradicional e impunham o catolicismo, ao mesmo tempo que proibiam o uso da língua materna e impunham o português. O resultado foi um sincretismo religioso que até hoje influencia não apenas o catolicismo, mas também o evangelicalismo popular. 

2.      Intercâmbio religioso – Alguns sistemas religiosos são resistentes ao sincretismo, enquanto outros são mais abertos. Especialmente neste segundo caso, o simples contato com outras práticas religiosas já é suficiente para causar misturas de princípios ativos. As sociedades de cultura menos tradicional estão mais abertas a absorver o que consideram de melhor nas outras religiões. É o caso dos seguimentos religiosos considerados esotéricos. 
Em tempos de globalização, quando o pluralismo e relativismo pós-moderno imperam, cresce a tendência à subjetividade religiosa, onde cada um pratica o que acha melhor. Mas este intercâmbio não é privilégio da pós-modernidade, pois os romanos já praticavam o intercâmbio de deuses, inclusive com povos por eles subjugados. Este também era o principal problema dos Israelitas nos tempos do Antigo Testamento, que com uma facilidade incrível se envolviam na adoração de deuses dos povos vizinhos. 

3.      Falhas na comunicação – Pensando mais especificamente no trabalho missionário, as falhas na comunicação podem ser apontadas como as principais causas de sincretismo. A falta de compreensão da cultura e religião local por parte do missionário, resulta numa comunicação truncada do evangelho. A exportação de formas culturais ao invés de princípios bíblicos resulta num evangelho irrelevante para o povo. E uma igreja que surge em situações assim, está apenas a um passo do sincretismo. 
Outra questão crítica é a contextualização. Há um longo debate acerca de sincretismo e contextualização, como sendo coisas muito próximas. O missiólogo neozelandês John Roxborogh faz um interessante questionamento: “se contextualização é apenas um bom sincretismo, então sincretismo é apenas uma contextualização ruim?”. E Paul Hiebert faz uma excelente exposição sobre essa questão quanto discorre sobre formas de lidar com o “velho” (tradições, costumes, religião). Para Hiebert, quando o “velho” é simplesmente negado, a contextualização é rejeitada. Isto gera um vácuo cultural que acaba sendo preenchido pela cultura do missionário, resultando em igrejas culturalmente alienadas, imaturas na fé e sincretistas em potencial. Quando o “velho” é simplesmente aceito, acontece uma contextualização acrítica, e isto resulta em sincretismo no grau mais complexo possível. 

LIDANDO COM POVOS SINCRETISTAS
Como evangelizar um povo sincretista, sem que o evangelho se torne apenas mais um elemento religioso? Ou como evitar que o evangelho seja reinterpretado a partir da antiga religiosidade? Não existe resposta simples e não se pode fechar a questão. Em última análise, sem sabedoria do alto e discernimento de Deus é vã qualquer tentativa, mas algumas medidas podem contribuir para o desafio em pauta.

1.      Análise fenomenológica – Os estudos de fenomenologia da religião aplicados ao trabalho missionário são relativamente novos no Brasil e por isto ainda não muito evidenciados. No processo de análise de qualquer povo, focaliza-se atenção em três áreas principais: língua, cultura e religião. Na prática são áreas inseparáveis, mas o pesquisador as distingue para fins de análise apenas. Precisa-se então de métodos científicos que sirvam de ferramentas adequadas para a análise. Assim, para o estudo da língua lança-se mão da linguística antropológica; para estudo da cultura, faze-se uso da antropologia cultural; e a ciência adequada para o estudo da religião, seria a fenomenologia da religião. Logo, a fenomenologia é para a religião, o que a linguística é para a língua e a antropologia para a cultura. 
Infelizmente, por falta de ênfase no estudo fenomenológico, via de regra tem-se lançado mão da antropologia cultural para o estudo da religião, o que tem dado bons resultados, mas poderiam ser melhores ainda se os recursos da fenomenologia fossem mais explorados.
Com a análise fenomenológica, podem-se levantar de forma bem mais segura as diferentes fontes religiosas presentes na religiosidade local. O que aparece são apenas formas, mas a análise não pode se limitar apenas a elas. É preciso descer ao nível dos significados e descobrir também qual a função social de cada fenômeno religioso. É simplismo concluir que os Xacriabá são católicos pelo simples fato de adorarem a imagem “católica” de São João dos Índios. A análise fenomenológica revelará o que aquela imagem realmente significa para eles. 
Compreender quais são as várias camadas da religião de um povo é de fundamental importância para uma comunicação relevante do evangelho.

2.      Teologias de respostas – Esta questão está diretamente ligada ao ponto anterior e foi levantada pela missióloga norte-americana, que por décadas trabalhou no Brasil, Frances Popovich. Para ela, uma abordagem missionária relevante precisa apresentar respostas bíblicas à cultura do povo. Com isto, ela não está sugerindo que os povos não alcançados vivam na dúvida, cheios de perguntas sem respostas. 
“Perguntas” são os aspectos específicos da cultura que precisam ser bem trabalhados para evitar o sincretismo, enquanto “respostas” são as elaborações bíblico-teológicas que irão de encontro a estas questões culturais específicas. A fenomenologia acha as “perguntas” e a teologia bíblica dá as “respostas”.
Paul Hiebert também aborda esta questão ao discorrer sobre contextualização. A sua proposta é exatamente a elaboração de respostas bíblicas para questões específicas, o que ele chama de “contextualização crítica”. O missionário deve incentivar os convertidos a fazerem uma análise crítica das suas antigas práticas, expor princípios bíblicos que tratem da questão e deixar a própria igreja achar as soluções. 
Para ele, “os novos cristãos podem voltar-se para as religiões populares tradicionais se não lhes forem oferecidas respostas cristãs para os seus problemas diários”. Por exemplo, a igreja que nasce em uma cultura que cultua ancestrais, precisará de uma teologia bíblica sobre espíritos bem específica. Do contrário, os cristãos continuarão cultuando ancestrais, inclusive achando “bases bíblicas” para isto. Ou seja, se a teologia bíblica não der as respostas, a cultura e religião darão, e aí acontecerá o sincretismo.
Vale mencionar que, o principal problema encontrado hoje nesta área é em igrejas já plantadas, que na sua segunda ou terceira geração apresenta traços sincréticos. Nestes casos, a proposta missiológica tem sido exatamente o ensino bíblico com viabilização teológica da liderança local, a partir do desenvolvimento de teologias específicas.

3.      Princípio do rompimento – Este princípio é uma sugestão de Alan Tippet e certamente é de grande aplicabilidade em contextos sincretistas. Segundo ele, em grupos assim, faz-se necessário um ato de rompimento com a antiga religiosidade, ou “ritual de separação”, que sirva como recordação de que aquelas antigas crenças e práticas ficaram para traz. É o que aconteceu em Atos 19.19, com alguns convertidos de Éfeso: “Grande número dos que tinham praticado ocultismo reuniram seus livros e os queimaram publicamente”.
Alguns cuidados precisam ser tomados para evitar extremismos. É preciso cuidar para que o rompimento não se torne uma alienação cultural. O convertido não deve romper com toda a sua cultura, muito menos com o seu povo, mas sim com as antigas práticas religiosas contrárias a princípios bíblicos. Outro cuidado a ser tomado é que este rompimento não deve ser imposto ou mesmo proposto pelo missionário. Deve acontecer por iniciativa dos próprios convertidos. O importante é que haja um marco que lembre a mudança de vida. O batismo, por exemplo, pode ser um momento ideal para a prática deste princípio.
Portanto, frente à desafiadora realidade sincretista que permeia tantas religiões, o missionário deve estar sempre atento a esta questão. As possibilidades de surgimento de igrejas sincretistas são grandes e por isto medidas devem ser tomadas para evitar tal fenômeno. Pesquisas mais abrangentes sobre sincretismo seriam de grande contribuição para o crescente contingente missionário. Temas como este, deveriam estar presentes em todos os currículos de formação missionária, especialmente vinculados aos estudos da fenomenologia da religião.

Em Cristo
Pr. Capelão Miss. Edmundo Mendes Silva

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A Igreja Perseguida na Atualidade


Nos últimos anos nossa atenção foi cativa por um segmento do Corpo de Cristo que tem sido chamado de Igreja sofredora.

Trata-se daqueles que, por serem cristãos, foram sequestrados e sobre eles nada se sabe. Dos encarcerados nas mais diversas formas (domiciliar, pública, social, emocional...), dos deslocados de suas terras e casas, dos preteridos de professarem abertamente a sua fé e ainda daqueles que sofrem pela exclusão social ou pela angustiante miséria. É chocante notarmos que 1 em cada 3 cristãos no mundo de hoje sofre algum tipo de perseguição, e cerca de 120 milhões habitam em regiões onde há perseguição hostil.
Não podemos fechar os olhos, nem o coração, para esta Igreja que vive e sofre.
O sofrimento não é novo na história do povo de Deus. Em Atos capítulo 8, a Igreja que amava a Jesus e se ajuntava em Jerusalém passou por uma de suas mais fortes provações. No primeiro verso deste capítulo Lucas nos diz que a Igreja era “perseguida”, utilizando aqui um vocábulo grego – “diogmos” - que significa um forte e visível ataque. Indicava que o sofrimento da Igreja nesta época de dispersão era perceptível por todos. Homens e mulheres eram mortos, outros encarcerados, famílias partidas ao meio e aqueles que conseguiam fugir deixavam para trás suas vidas e história. Esta “perseguição” era, portanto, um terrível sofrimento físico, visível e violento.
No segundo verso Lucas nos diz que a Igreja “pranteava” a morte de Estêvão. O autor, inspirado, escolhe a expressão grega “kopeton” que significa a “dor da alma”, ou “bater no peito” para expressar este pranto. Mostra que esta Igreja se melancolizava pelo caos ao seu redor e, assim, não havia apenas dor no corpo, mas também na alma. Esta Igreja chorava de forma visceral a morte de Estevão, e tantos outros, sofrendo tanto física quanto emocionalmente. 

No terceiro verso somos levados a ler que Saulo “assolava” o povo de Deus, utilizando-se aqui a expressão “elumaineto” que possui a mesma raiz da usada em João 10:10 ligada à destruição da fé e das convicções quando se refere àquele que veio roubar, matar e destruir. Trata-se de um sofrimento espiritual quando os alicerces das convicções mais profundas são atacados.
Estes três níveis de sofrimento descritos em contexto de perseguição em Atos 8 (físico, emocional e espiritual) podem muito bem ilustrar as vias de dor da Igreja ao longo de sua história, bem como nos dias de hoje. Deve nos ensinar que:
(1) seguir a Cristo – e mesmo fazê-lo com devoção e fidelidade – não isenta o crente do sofrimento;
(2) em meio a estes sofrimentos não estamos sós, pois maior é Aquele que está em nós;
(3) o sofrimento é uma oportunidade de se alicerçar a fé - daquele que é provado no dia mau – e de expressar amor e sincera solidariedade - por parte daquele que pode estender a mão.

A Coréia do Norte apresenta a mais intensa intolerância religiosa no mundo de hoje e por sete anos se destaca em primeiro lugar na Classificação de Países por Perseguição editada por Portas Abertas Internacional. Encontros cristãos são proibidos e somente realizados sob alto risco e custo. Há pouquíssimas bíblias no país e, assim, poucos cristãos com seu próprio exemplar da Palavra de Deus.
Há no momento cristãos encarcerados, e tantos outros seqüestrados, na Argélia, Azerbaijão, Eritréia, Iêmen e Indonésia, entre vários outros países. No Irã a Missão Voz dos Mártires notifica a forte intimidação sobre aqueles que professam sua fé em Jesus. A medida que a Igreja cresce, também cresce a perseguição. Na década de 90 muitos líderes cristãos foram assassinados.

A Eritréia passa pela época de mais intensa perseguição religiosa em sua história. A distribuição de Bíblias não é permitida e em 2002 todas as igrejas evangélicas foram fechadas por ordem governamental. Cerca de 2.000 cristãos foram presos por se reunirem para louvar a Deus. Muitos são mantidos em condições subumanas, celas subterrâneas ou contenners de metal.

No Egito um recente relatório sobre os direitos humanos apontou para a perseguição semi velada dirigida aos 80 milhões de cristãos coptas que não conseguem permissão para construir igrejas ou orar em casa. Há cerca de 4 ataques por mês contra os coptas no país, e 144 ataques já foram registrados em 2009.

No Iraque milhares de cristãos continuam a fugir da violência, tanto em Bagdá quanto em Mosul, deixando para trás suas casas a procura de refúgio no Curdistão e outras áreas de fronteira. Os cristãos no Iraque, que eram 1 milhão e 400 mil em 1987 não passam hoje de 500 mil. Estes cristãos deslocados enfrentam severa provação, pois se encontram em solo estranho sem emprego, carreira, dinheiro ou amigos.

No norte da Índia a perseguição contra cristãos deslocou um grande número de pessoas que ainda não puderam voltar para suas casas. Igrejas foram queimadas e há um sentimento de insegurança. Apenas na região de Karnataka foram registrados 56 ataques ao longo de 2009 contra igrejas e cristãos.
As restrições para se partilhar de Jesus atingem os mais diversos países e áreas. Transitam desde algumas reservas indígenas da Amazônia, passando pelo Norte da Nigéria até o distante Afeganistão.
Devemos orar e trabalhar para que:
1)      Cristãos ao redor do mundo recebam exemplares da Palavra de Deus;
2)      Os países e regiões onde há clara perseguição cristã possam experimentar abertura política, social e religiosa;
3)      Cristãos sob perseguição sejam encorajados, e aqueles sob intensos ataques sejam fortalecidos no Senhor;
4)      Sejam libertos os que, sob perseguição, foram encarcerados ou sequestrados;  
5)      Cristãos deslocados sejam apoiados para recomeçarem a vida em novas regiões;
6)      O testemunho dos perseguidos possa guiar muitos aos pés do Senhor Jesus;  
7)      A Igreja livre possa juntar-se em um só espírito àquela que sofre perseguição.
Em um país da Ásia central vi recentemente irmãos que amam a Jesus colocando suas vidas, famílias, carreiras e reputação em risco, alto risco, para testemunharem do amor do Pai. É necessário nos juntarmos a eles para chorar com os que choram e encorajá-los a seguirem este caminho estreito, que os leva à Alegria que se renova pela manhã.


Vamos  orar pelos perseguidos.
Em Cristo
Pr. Capelão Miss. Edmundo Mendes Silva